Lesões no futebol feminino

A prática de atividades esportivas e, mais especificamente, o esporte competitivo, tem aumentado entre as mulheres recentemente. Classicamente, a mulher era protagonista em esportes que envolvem expressão corporal, como a ginástica artística e rítmica, o nado sincronizado e o ballet, mas a participação em esportes tradicionalmente dominados por homens, como o futebol, também tem crescido.

Ainda que a regras sejam as mesmas, o corpo do homem e da mulher respondem de forma diferente ao mesmo estímulo físico. Alguns pontos devem ser levados em consideração no tratamento médico da jogadora de futebol feminino, principalmente relacionados ao ciclo menstrual. A tríade da mulher atleta é uma preocupação entre aquelas que jogam em alta intensidade e que buscam a perda de peso sem um acompanhamento adequado.

As lesões do Ligamento Cruzado Anterior, que independentemente do gênero é a principal causa de indicação cirúrgica em jogadores de futebol, chega a ser entre duas e seis vezes mais frequente entre as mulheres quando se compara jogadores do mesmo nível competitivo.

Tudo aquilo que foi discutido sobre as Lesões no futebol é válido tanto para o homem quanto para a mulher. Ainda assim, as especificidades da jogadora feminina devem ser levados em consideração sempre que se discute estas lesões.

Ciclo menstrual

O ciclo menstrual tem influência direta no corpo, na disposição e no desempenho das jogadoras. Nada é mais irritante e estressante do que lidar com um período pesado ou doloroso quando se busca competir em alto nível. Ainda assim, o impacto das flutuações hormonais, do ciclo menstrual e do eventual uso de anti-concepcionais é muito variável de mulher para mulher. Discutimos mais sobre isso no artigo sobre a Mulher Atleta.

Estrutura do futebol feminino e risco de lesões

Como discutido acima, o risco de rompimento do Ligamento Cruzado Anterior é muito maior entre as mulheres, considerando o mesmo nível competitivo. Diversos estudos buscam justificar a maior incidência em decorrência dos efeitos do ciclo menstrual, da força muscular, de aspectos neurofisiológicos ou anatômicos. Tudo isso aparentemente tem sua contribuição, mas o que discutirei aqui são os aspectos extra-campo que certamente influenciam para esta maior incidência de lesões e que raramente são colocados em discussão.

A lesão do ligamento Cruzado Anterior, juntamente com as lesões musculares e os entorses do tornozelo, são as principais preocupações de departamentos médicos no futebol. Ainda que possam ocorrer em qualquer jogador independentemente de sua condição física, ocorrem de forma muito mais clara na presença de desequilíbrios e fraquezas musculares, fadiga e outras situações que fazem com que a musculatura não responda adequadamente aos comandos.

Diversos fatores que não estão diretamente relacionados ao corpo da mulher ou do homem podem contribuir para uma maior deficiência entre as mulheres:

• As atletas femininas têm contratos de trabalho muito mais precários do que os homens. Muitas vezes as ligas têm atividades apenas em parte do ano e as atletas são dispensadas ao final da competição, retornando apenas na temporada seguinte.

A pré-temporada fica bastante prejudicada, e muitas vezes ao invés de usarem este tempo para se recuperarem fisicamente acabam por assinar contrato em outras ligas ou clubes, seja pelo “amor ao esporte”, como forma de se manterem em atividade ou para complemento da renda. Em alguns casos, simplesmente se afastam temporariamente de qualquer treino regular, prejudicando seu condicionamento físico. O trabalho não tem, portanto, uma continuidade.

• Os clubes têm elencos muito mais limitados, com poucas peças de substituição. Isso faz com que, uma vez lesionadas, as atletas voltem a atuar antes de terem uma recuperação completa.

• Os departamentos médicos dos clubes são mais limitados, tanto em relação a recursos humanos como em relação a recursos materiais. As condições para realizar um trabalho preventivo com médico, fisioterapeuta, preparador físico, nutricionista e outros profissionais são mais restritas.

• No caso de atletas que atuam no exterior, a situação pode ser ainda pior, já que além das limitações dos clubes propriamente ditas as atletas ainda precisam enfrentar barreiras culturais e linguísticas. No futebol masculino, os jogadores tendem a levar outros profissionais para lhe darem suporte, incluindo empresário, preparador físico, fisioterapeuta, cozinheiro; as atletas femininas como regra geral vão sozinhas.

• As condições de campo são muito piores: campos duros e esburacados fazem parte da rotina mesmo nos grandes clubes femininos.

Todos os fatores listados acima estão diretamente relacionados à maior incidência de lesões no futebol feminino. Justificar as lesões com base apenas nas diferenças próprias do corpo feminino é ignorar aquilo que, de fato, pode ser modificado, que são as condições de treino e jogo.

Ao discutirmos sobre as lesões no futebol feminino, precisamos sim considerar as diferenças físicas entre os gêneros, mas os fatores extra-campo, ainda que não estejam sob o controle direto das equipes médicas, devem também ser levados em consideração.
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