Lesões esportivas na mulher

A maior parte das lesões esportivas está associada mais ao esporte praticado pelo atleta do que ao seu gênero, mas em alguns casos as diferenças entre os gêneros são alarmantes:

  • A pubalgia é uma lesão frequentemente observada entre atletas masculinos, mas que raramente é vista entre as mulheres;
  • O rompimento do Ligamento Cruzado Anterior é a lesão cirúrgica mais comum em esportes com mudanças de direção, giro e contato físico. Sua ocorrência é 2 a 8 vezes maior entre as mulheres, considerando o mesmo esporte e nível competitivo;
  • Outras lesões decorrentes de entorses do joelho ou tornozelo também são mais comuns entre as mulheres;
  • As fraturas por estresse acometem mais as mulheres, o que se justifica por uma maior incidência de deficiência energética entre elas. A deficiência energética é o principal fator de risco para as fraturas por estresse.
  • O adequado tratamento das lesões esportivas exige que se compreenda os fatores que contribuíram para a ocorrência destas lesões, para que isso seja corrigido. Isso minimiza o risco de recorrência no momento do retorno ao esporte. Principalmente no caso das lesões descritas acima, as diferenças de gênero devem ser consideradas.

    Fatores de risco para lesões

    Os fatores de risco devem ser divididos entre fatores intrínsecos (próprios da atleta) e fatores extrínsecos (relacionados ao ambiente esportivo). Discutiremos aqui as características da atleta feminina que a colocam sob maior risco de lesão.

    Fatores intrínsecos

    • Fatores anatômicos: A estrutura física da mulher e do homem são diferentes. Ainda que exista uma grande variação individual, a mulher habitualmente apresenta um quadril mais largo, uma composição corporal diferente, uma musculatura mais fraca e uma maior flexibilidade nas articulações quando comparado com homens envolvidos com o mesmo esporte e no mesmo nível de competição.
    • Fatores biomecânicos: o controle neuromuscular é diferente entre homens e mulheres. Isso significa que a forma como a mulher corre, salta e aterriza é diferente. As diferenças no controle neuromuscular são consideras um dos principais motivos pelo qual as entorses no joelho ou tornozelo são bem mais comuns entre mulheres do que entre homens.
    • Ciclo menstrual: As mulheres apresentam oscilações no seu estado de humor, nos níveis de concentração e na sua capacidade de controle corporal ao longo dos diferentes estágios do ciclo menstrual. Os ligamentos podem se tornar mais rígidos ou mais frouxos ao longo do ciclo. Isso faz com que o risco de lesões também se altere nas diferentes fases do ciclo menstrual da atleta.
    • Deficiência energética: As atletas femininas são mais comumente acometidas pela deficiência energética, o que afeta a função de diversos órgãos e sistemas do corpo. Uma das consequências desta deficiência é a osteoporose, que causa uma fraqueza nos ossos e deixa a atleta vulnerável para o desenvolvimento de fraturas por estresse.

    Fatores extrínsecos

    Atletas que apresentam uma boa técnica esportiva, um bom condicionamento físico, que se recupere adequadamente entre um treino e outro e que conte com o suporte de uma equipe multidisciplinar de qualidade tende a se machucar menos.

    Infelizmente, o atleta masculino tende a levar vantagem neste quesito em comparação com as mulheres, por diversos motivos:

    Os contratos de trabalho das mulheres são mais precários do que os dos homens. Muitas das ligas femininas têm atividades apenas em parte do ano e as atletas são dispensadas ao final da competição, retornando apenas na temporada seguinte. A pré-temporada fica bastante prejudicada. Muitas vezes, ao invés de usarem este tempo para se recuperarem fisicamente, acabam por assinar contrato em outras ligas ou clubes.

    Em alguns casos, simplesmente se afastam temporariamente de qualquer treino regular, prejudicando seu condicionamento físico. O trabalho não tem, portanto, uma continuidade.

    Os clubes femininos têm elencos mais limitados, com poucas peças de substituição. Isso faz com que, uma vez lesionadas, as atletas voltem a atuar antes de terem uma recuperação completa, ou que continuem jogando “no sacrifício”.

    Os departamentos médicos dos clubes são mais limitados, tanto em relação a recursos humanos como em relação a recursos materiais. As condições para realizar um trabalho preventivo com médico, fisioterapeuta, preparador físico, nutricionista e outros profissionais são mais restritas.

    No caso de atletas que atuam no exterior, a situação pode ser ainda pior, já que além das limitações dos clubes propriamente ditas, as atletas ainda precisam enfrentar barreiras culturais e linguísticas. No futebol masculino, os jogadores tendem a levar outros profissionais para lhe darem suporte, incluindo empresário, preparador físico, fisioterapeuta, cozinheiro; as atletas femininas, como regra geral, vão sozinhas.

    As condições de campo são muito piores: gramados duros e esburacados fazem parte da rotina mesmo nos grandes clubes femininos.

    Prevenção de lesões

    Os fatores de risco listados acima podem ser divididos entre aqueles que são modificáveis e os não modificáveis. Os fatores extrínsecos podem ser abordados por meio de uma maior cobrança aos clubes e às autoridades esportivas, mas não costumam estar sob o controle da atleta. Em alguns casos, isso pode ser feito por meio de modificações nos regulamentos dos esportes ou competições, o que já foi feito diversas vezes com sucesso.

    Do ponto de vista individual, a atleta deve focar em ter uma boa preparação física, em evitar períodos prolongados de inatividade e em otimizar a recuperação entre treinos. Além disso, a correção de falhas neuromotoras e do gesto esportivo é fundamental.

    Para concluir uma tarefa com êxito, o indivíduo precisa coordenar o movimento de múltiplas articulações usando as informações sensoriais fornecidas ao cérebro por receptores localizados ao redor das articulações. A isso se denomina de controle neuromuscular.

    As diferenças na ativação e controle neuromuscular são responsáveis por grande parte da diferença no risco de lesões entre homens e mulheres. Eventuais falhas neste controle, seja por um hábito ruim de movimento, seja em decorrência de traumas e lesões, podem ser corrigidos pelo trabalho de reabilitação e prevenção de lesões.

    Entre as falhas no controle neuromuscular que costumam ser observadas entre as mulheres, devemos considerar que:

    As mulheres têm maior dificuldade de manter o alinhamento dos membros inferiores em atividades como a corrida ou a aterrissagem de saltos, levando a uma posição denominada tecnicamente pelo termo de valgo dinâmico.

    Nesta posição, os joelhos tendem a ficar “rodado para dentro”, o que é uma posição de risco para lesões no joelho, tanto lesões agudas (principalmente o rompimento do Ligamento Cruzado Anterior) como lesões por sobrecarga (como a condromalácia da patela).

    A mulher tende a realizar o apoio inicial após a aterrissagem de saltos em uma posição mais esticada do que os homens. A dificuldade em manter a estabilidade da bacia na corrida faz com que lesões como o atrito da banda iliotibial seja mais comum entre as mulheres. .
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