Deficiência energética no esporte

A deficiência energética relativa no esporte é um termo mais amplo do que até recentemente era denominado: “tríade da mulher atleta”. Caracteriza-se pelo desequilíbrio entre a ingestão de energia (dieta) e a energia gasta com o exercício e outras atividades diárias, resultando em um balanço energético insuficiente para o funcionamento do corpo. Esta deficiência tem implicações tanto para a saúde geral do atleta como para o desempenho esportivo.

A tríade da mulher atleta caracteriza-se pela associação de deficiência energética relativa, distúrbios menstruais e osteoporose. A mudança de nomenclatura para “deficiência energética relativa no esporte” se deu para englobar outras consequências da deficiência energética, além dos distúrbios menstruais e da osteoporose, e, também, porque grande parte destas alterações passou a ser observada inclusive em atletas do sexo masculino.

Quais os atletas sob maior risco?

A deficiência energética é mais frequentemente vista em certos grupos de atletas:

• Esportes que enfatizam o esteticismo e o baixo peso, como a ginástica, o ballet, o nado sincronizado ou o salto ornamental.

• Modalidades que envolvem categorias de peso, como os esportes de luta ou remo.

• Esportes de ultra-rresistência, Como a maratona, o triathlon (especialmente ironman) e as voltas ciclísticas.

• Atletas com restrições alimentares, como no caso dos vegetarianos.

Além disso, estima-se que as mulheres estejam sob maior risco do que seus colegas homens, respeitando-se a mesma atividade e nível de competição.

Consequências do déficit energético para a saúde do atleta

O déficit energético relativo do atleta tem diversas consequências para a saúde:

Deficiências hormonais: Os efeitos da baixa disponibilidade energética no sistema endócrino foram descritos inicialmente em atletas mulheres, com as alterações dos hormônios sexuais e a consequente desregulação do ciclo menstrual. Apenas recentemente foi descrita também em atletas do sexo masculino.

Incluem, entre outros:

• Interrupção do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal;

• Alterações na função da tireoide;

• Diminuição da insulina;

• Aumento da resistência ao hormônio do crescimento (GH);

• Elevação do cortisol.

Muitas dessas alterações hormonais provavelmente ocorrem para conservar energia para funções corporais mais importantes ou usar as reservas de energia do corpo para processos vitais.

Desregulação do ciclo menstrual: As flutuações de peso decorrentes de restrições alimentares e / ou exercício excessivo afetam a produção de hormônios sexuais, hormônios estes responsáveis pela regulação do ciclo menstrual. Como resultado, os períodos podem se tornar irregulares ou parar completamente.

Osteoporose: Caracteriza-se pela redução da densidade mineral dos ossos, os quais se tornam mais porosos. Alterações hormonais decorrentes da deficiência energética e baixa disponibilidade de vitaminas e minerais (principalmente cálcio e a vitamina D) estão relacionadas ao desenvolvimento da osteoporose.

A baixa densidade mineral óssea torna os ossos mais frágeis e, portanto, suscetíveis a fraturas. Como os atletas são ativos e seus ossos devem suportar estresse mecânico elevado, a probabilidade de sofrer fratura óssea é particularmente alta.

Fraturas por estresse devem ligar no médico um sinal de alerta para o eventual desenvolvimento de deficiência energética.

A osteoporose preocupa, também, em relação à saúde do atleta no longo prazo. A massa óssea atinge seu pico entre as idades de 18 e 25 anos, quando passa a cair gradativamente. A baixa densidade óssea na juventude faz com que estes atletas tenham uma menor reserva a ser perdida com o avanço da idade, aumentando a ocorrência de osteoporose no futuro.

Sistema hematológico: O ferro é essencial para a formação das células do sangue e, consequentemente, para a capacidade de transporte de oxigênio. A deficiência de ferro, quando observada em atletas, pode contribuir direta e indiretamente para a deficiência de energia, uma vez que o oxigênio deixa de ser adequadamente transportado até os diversos tecidos, principalmente a musculatura.

Crescimento: O crescimento linear de atletas adolescentes pode ser comprometido pela deficiência energética. Isso ocorre em decorrência da desregulação na produção de hormônios associados ao crescimento, como o GH (hormônio do crescimento) e o IGF-1. Estudos demonstram recuperação parcial, mas nem sempre completo, do crescimento após o reequilíbrio da disponibilidade energética.

Função gastrointestinal: Atletas com deficiência energética, habitualmente, apresentam atraso no esvaziamento gástrico, constipação e aumento do tempo de trânsito intestinal.

Sistema imunológico: Estes atletas são mais suscetíveis a doenças infecciosas, especialmente infecções respiratórias e infecções gastrointestinais. Atletas que estão frequentemente doentes devem levantar a suspeita para deficiência energética.

Problemas psicológicos: Podem preceder ou ser causados ​​pela deficiência energética. A restrição energética está associada a um gasto de energia em repouso reduzido, pensamento lentificado, traços depressivos leves, distúrbios psicossomáticos e menor capacidade de gerenciar o estresse.

Consequências da baixa disponibilidade de energia sobre o desempenho esportivo

A deficiência energética relativa do atleta pode afetar o desempenho esportivo através de uma variedade de mecanismos diretos e indiretos:

• A menor disponibilidade energética para as células musculares faz com que a força e a resistência muscular fiquem diminuídas. Funciona como um carro com o tanque vazio, que não é reabastecido antes de uma viagem.

• A função cognitiva / intelectual fica comprometida, afetando a capacidade para tomada de decisões, tempo de reação e concentração.

• A recuperação entre os treinos também será prejudicada. Durante um treino, a musculatura é parcialmente destruída, sendo refeita durante o período de recuperação entre treinos. Em condições ideais, ela não apenas se recupera como fica ligeiramente mais forte do que antes do treino anterior.

Quando não existe nutriente disponível, porém, esta recuperação torna-se incompleta. Se isso ocorre repetidas vezes, o desgaste da musculatura torna-se cumulativo, prejudicando o desempenho e aumentando o risco de lesões.

• As frequentes infecções (principalmente respiratórias) fazem com que o atleta não seja capaz de manter seu programa regular de treinamento.

Risco de lesões

O atleta com deficiência energética fica mais vulnerável a lesões, por diferentes motivos:

• A capacidade de recuperação entre os treinos fica comprometida, aumentando o desgaste cumulativo entre os treinos e aumentando o risco de lesões por sobrecarga / esforço cumulativo.

• A osteoporose, característica de atletas com deficiência energética, faz com que o risco de fraturas aumente, especialmente as fraturas por estresse.

• Uma vez lesionado, o atleta com deficiência energética terá uma recuperação mais limitada e prolongada.

Diagnóstico

A maior parte dos atletas não tem consciência de que apresentam uma alimentação inadequada. Muitos acreditam que sua restrição alimentar seja um “sacrifício necessário” para atingir uma condição física, muitas vezes, não realista. Desta forma, é preciso que a equipe que acompanha o atleta tenha um alto grau de inspeção na busca por sinais sugestivos deste déficit energético.

O diagnóstico envolve, por um lado, a aferição do déficit energético e, por outro, a identificação dos diversos problemas que possam advir deste déficit energético.

Identificação do déficit energético

A identificação da deficiência energética envolve o cálculo do consumo e do gasto energético. Este cálculo nem sempre é tão simples, já que pode ser muito variável de um dia para o outro ou de um período da temporada para outro.

Muitos atletas mudam regulamente as características de treino e nem sempre a avaliação do cenário atual representa a realidade de treinamento que gerou a deficiência energética.

O cálculo do consumo alimentar também tem seus desafios. Um atleta que viaja regularmente para competições alimenta-se em diferentes hotéis, eventualmente em diferentes países. A alimentação pode ser bastante diferente daquilo que ele consome quando está em casa, de forma que fica difícil estabelecer uma rotina alimentar.

O acompanhamento com um nutricionista deve ser indicado sempre que houver a suspeita pela história clínica de que o atleta esteja desenvolvendo um déficit energético.

Identificação de problemas secundários ao déficit energético

O médico deve buscar na avaliação por todos os fatores listados acima, que possam advir do déficit energético, entre eles, sinais de fadiga, dificuldades com o sono, perda ou ganho recente de peso, nervosismo, dificuldade de concentração e raciocínio.

No caso de mulheres, toda disfunção menstrual deve ser investigada.

A densitometria óssea deve ser solicitada para o diagnóstico da osteoporose.

Exames laboratoriais podem contribuir para a identificação de deficiências nutricionais específicas, bem como para as dosagens hormonais.

Tratamento

O tratamento do atleta com deficiência energética deve envolver uma equipe multidisciplinar que englobe os mais diferentes aspectos relacionados a esta deficiência. O ponto inicial é a correção do balanço energético. Em casos mais iniciais, a correção da baixa ingestão energética pode ser suficiente, sem interferir no treinamento.

Nos casos mais graves, pode ser necessário o afastamento temporário das atividades esportivas, até que o organismo consiga se recuperar.

O suporte psicológico ou até mesmo psiquiátrico pode ser necessário, já que a mudança de hábitos alimentares não costuma ser fácil.

Os treinadores, como regra geral, são desencorajados a participarem ativamente no tratamento de distúrbios alimentares. Além dos conflitos de interesse, os treinadores podem ser vistos pressionando as atletas e, potencialmente, perpetuando os fatores que levaram ao desenvolvimento do problema.

Medicamentos

No caso das mulheres, o ginecologista pode prescrever estrogênio ou progesterona cíclica, como é usado no tratamento de mulheres na pós-menopausa. Pode ser indicado, também, o uso de contraceptivos orais para estimular períodos regulares. Isso poderá ser feito enquanto as funções fisiológicas do corpo estiverem “em processo de recuperação”.

Além da terapia hormonal, suplementos nutricionais podem ser recomendados. Suplementos de cálcio ou vitamina D podem ser indicados principalmente em casos que tenham sido diagnosticados com osteoporose.

O atleta a pode receber antidepressivos para ajudar a aliviar o sofrimento severo nas refeições.
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