Gelo ou calor para tratamento de lesões

Gelo e calor são duas modalidades usadas há longa data no tratamento de dores e lesões. Ainda que existam indicações clássicas para um ou para o outro tratamento, há situações em que tanto o calor como o gelo podem ser considerados. Buscaremos aqui ajudá-lo a compreender o porquê de cada um destes tratamentos, bem como suas indicações e métodos de aplicação.

Crioterapia (gelo)

O resfriamento dos tecidos e das articulações por meio da aplicação de gelo é uma forma de tratamento denominada de crioterapia. Suas principais indicações estão nos processos inflamatórios agudos, dor aguda ou crônica, dor e edema pós-cirúrgico. Ainda que considerado por muitos como um tratamento sem maiores consequências, o abuso no uso do gelo pode ser prejudicial na recuperação de lesões e para a adaptação esperada com o treinamento esportivo.

Mecanismo de ação

Os benefícios da crioterapia estão associados a diversos mecanismos, incluindo a redução no metabolismo celular, a vasoconstrição e a menor transmissão do estímulo doloroso pelos nervos periféricos.
    • Redução no metabolismo: O sofrimento celular aumenta a necessidade de consumo de oxigênio pelas células, ao mesmo tempo em que a lesão provoca uma redução na oferta de oxigênio, levando a um desequilíbrio metabólico denominado de estresse oxidativo.O estresse oxidativo pode ser determinante no sentido de impedir a recuperação celular e gerar uma destruição tecidual além daquele imposto inicialmente pela lesão.

      Sempre que há uma lesão, algumas células são gravemente danificadas e morrem quase imediatamente, enquanto outras, com menor dano estrutural, morrerem mais lentamente.

      O resfriamento tecidual leva a uma redução no metabolismo e redução no consumo de oxigênio pelas células, oferecendo melhores condições para a recuperação e reduzindo o dano secundário da lesão. Ao reduzir o metabolismo celular, o gelo melhora as condições para que células danificadas, mas ainda viáveis, possam se recuperar.
    • Redução da transmissão do estímulo doloroso: A transmissão do sinal doloroso é feita por nervos que conectam o tecido machucado ao cérebro. A redução da temperatura diminui a “excitabilidade” desses nervos, reduzindo a percepção dolorosa. Com o resfriamento da pele provocado pelo uso do gelo, a pele se torna dormente em decorrência da menor excitabilidade dos nervos periféricos no local.
    • Vasoconstrição: Diante de uma lesão, os vasos sanguíneos se dilatam para permitir que células inflamatórias tenham acesso ao local da lesão. Isso desencadeia o inchaço e a dor que reconhecemos como inflamação. O resfriamento tecidual, por outro lado, tem um efeito vasoconstritor (redução do diâmetro das artérias e veias), diminuindo assim a circulação de sangue no local. Com isso, a liberação de substâncias que causam inflamação e dor também diminui.

    Métodos de resfriamento

O resfriamento pode ser obtido com o uso de pacotes de gelo, imersão em gelo, pacotes de gel de resfriamento, massagem com gelo e sprays, entre outros métodos.
      • saco de geloPacotes de gelo: são ideais para o resfriamento de uma articulação ou de um sítio anatômico logo após um trauma ou lesão. Os cubos de gelo devem ser colocados em um saco plástico ou pano de cozinha para isolá-lo da pele, evitando-se lesões na pele (discutiremos isso mais adiante).
 
      • Gel de resfriamento: É uma boa opção no controle da dor e do edema em articulações mais superficiais. Nos casos de inflamação aguda em articulações mais profundas, o gel não é a melhor alternativa, uma vez que ele esquenta rapidamente e perde a capacidade de resfriamento antes que se atinja a temperatura desejada.
 
      • Imersão em gelo: A imersão em água fria é uma prática comum após atividades físicas extenuantes ou quando o atleta irá competir em duas provas com curto intervalo para recuperação. imersãoO objetivo é reduzir a inflamação e o dano muscular secundário da atividade física. Diversos protocolos diferentes são propostos para isso, com diferentes temperaturas e diferentes durações.
 


 
      • spraySpray: o resfriamento por meio de spray é muito utilizado na beira do campo, para o atleta que sofre um trauma e precisa de uma solução rápida para retornar para o jogo. O objetivo nestes casos é a redução da dor, já que o resfriamento não é suficiente para provocar redução do edema ou do metabolismo.
 

Com o deve ser feita a crioterapia?

Se os mecanismos de ação e as indicações para a crioterapia são motivos de grandesdiscussões entre especialistas, os protocolos de aplicação são ainda mais variáveis.
      • Tempo de aplicação: Durante a aplicação de gelo, a pele primeiro fica fria, depois queima, depois dói e depois fica adormecida. Uma vez que a pele esteja dormente, a aplicação do gelo deve ser interrompida. Quanto maior a cobertura de músculo e gordura, maior o tempo necessário para isso. Assim, quadril e joelho podem precisar de 20 minutos para que se atinja o resfriamento necessário, ao passo que pés, tornozelos e mãos podem precisar de apenas 3 a 5 minutos.
      • Frequência de aplicação: A aplicação de gelo poderá ser repetida assim que a temperatura da pele retornar ao normal. Intervalos de uma a duas horas são geralmente recomendados.
      • Duração do tratamento: O tratamento com gelo deve ser feito durante a fase de inflamação aguda, o que geralmente dura de 48 a 72 horas. Enquanto a pele está quente, avermelhada e sensível ao toque é indicativo de que a inflamação ainda deve ser considerada aguda e que o gelo pode ser benéfico.

Indicações para a crioterapia

Condições de dor e inflamação aguda decorrentes de trauma (lesão muscular, contusão, entorses), de condições atraumáticas (agudização de quadros de tendinite ou artrose) e pós operatório são as condições em que a crioterapia está melhor estabelecida e em que ela foi mais estudada.

A imersão em gelo pode ser considerada em condições específicas para o tratamento da dor muscular pós treino, mas seu uso regular torna-se prejudicial. A dor e o edema de longa duração também tem algum benefício com o uso de gelo, mas estes benefícios são mais limitados.

1. Pós trauma:

Condições de inflamação aguda decorrente de trauma, agudização de doenças crônicas (tendinite, artrose) ou pós operatório é uma das principais indicações para a crioterapia. Ainda no campo de jogo, o resfriamento por meio de sprays é uma forma rápida e eficaz de alívio momentâneo da dor, ainda que não cause resfriamento suficiente para a redução no metabolismo celular e redução no dano pós traumático.

Uma vez fora de campo, o uso de pacotes de gelo deve ser enfatizado, visando a redução do metabolismo celular e da liberação de agentes pró-inflamatórios.

2. Pós-operatório:

O uso de gelo ajuda na redução da dor, da inflamação e do edema após uma cirurgia e diminui a necessidade de medicamentos para controle da dor. O controle da dor é fundamental para evitar a inibição muscular no pós operatório de cirurgias ortopédicas e deve ser iniciado assim que eventuais enfaixamentos forem retirados da articulação, seguindo o mesmo protocolo descrito acima para uso de gelo após um trauma.

3. Dor muscular pós treino:

Sempre que realizamos exercícios físicos, ocorrem micro lesões na musculatura. Estas lesões provocam uma inflamação local que, em parte, é responsável pelo processo de recuperação muscular pós treino.

Dentro de certos limites, isso é esperado e benéfico para o atleta. Quando a atividade é excessiva, a destruição celular é maior e o atleta pode apresentar dano muscular secundário em decorrência da liberação de radicais livres e aumento do estresse oxidativo, conforme discutido acima.

Idealmente, o atleta não deve chagar a este ponto, mas quando isso acontece (em um pós- jogo, por exemplo), o resfriamento corporal ajuda a minimizar o dano.

O gelo não é, desta forma, uma modalidade para uso regular após treinos, uma vez que inibe a adaptação do corpo aos exercícios e retarda a recuperação pós-treino, mas deve ser considerado em situações pontuais de excesso de atividade. A imersão em água fria é bastante difundida e a melhor opção nestes casos.

4. Dor crônica

O paciente com dor crônica pode apresentar algum alívio da dor com o uso de gelo, em função principalmente da inibição da transmissão do sinal doloroso pelos nervos. Este efeito ainda é fruto de discussão no meio científico, de forma que a percepção individual frente ao tratamento deve ser considerada para o uso ou não da crioterapia nestes casos.

Tabela

Possíveis efeitos indesejáveis

Lesão de pele

O uso do gelo por tempo excessivo provoca uma redução na circulação sanguínea e pode causar lesões na pele. Nos quadros mais leves, o paciente apresenta uma irritação local (urticária), podendo evoluir para queimadura e, em casos extremos, para necrose tecidual.

A necrose por congelamento é um problema bastante descrito em escaladores de alta montanha, quando ficam com os pés e mãos molhados em temperaturas extremamente frias e chegam ao ponto de terem que amputar o membro.

Após algum tempo de aplicação do gelo, a pele torna-se insensível e o paciente pode não perceber que ela está em sofrimento. Assim, o uso do gelo deve ser descontinuado assim que se perceba que a área de aplicação está insensível ao toque.

Pacientes idosos, com deficiência de sensibilidade (diabéticos ou com lesão medular) ou com circulação periférica comprometida exigem cuidado extra e podem, em alguns casos, serem formalmente contra indicados a realizarem a crioterapia.

Risco de lesões traumáticas

O resfriamento pode inibir temporariamente a função muscular, com potencial para aumento do risco de lesão / nova lesão caso o atleta retorne em seguida para a prática de exercícios complexos. O uso de spray de gelo não causará um resfriamento suficiente para isso, servindo mais como um analgésico, mas o uso de gelo por tempo mais prolongado, como em um intervalo de jogo, deve ser evitado.

Risco de infecção

A inflamação é importante no combate a infecção, de forma que o gelo não deve ser usado no caso de feridas com suspeita de infecção ou risco potencial de infecção (ferimentos abertos pós-traumáticos). Nos ferimentos estéreis (pós cirúrgicos) ele deve ser feito de forma estéril, com o ferimento protegido por curativo.

Tratamento por meio de calor

O tratamento por meio de calor é indicado em casos de dor e espasmo muscular e casos de rigidez articular. O calor aumenta a circulação sanguínea na área acometida pelo espasmo e ajuda a relaxar a musculatura. Além disso, melhora a elasticidade tecidual e ajuda no alívio da rigidez articular.

Dores musculares causadas por esforço excessivo, cãibras, espasmos e, especialmente, os pontos-gatilho (“nós” musculares) são comuns e respondem muito bem ao aumento da temperatura.

O calor não deve ser usado situações de processo inflamatório ativo, incluindo a dor pós trauma ou pós operatória. Também não deve ser feito logo antes de competições, uma vez que o relaxamento muscular pode ter influência negativa no desempenho esportivo.

Métodos de aquecimento

Os métodos de aquecimento podem ser locais (direcionados a uma única região corporal) ou sistêmicos (envolvendo o corpo como um todo) e pode ser úmido ou seco.

  • Métodos locais secos: pacotes de gel para aquecimento, bolsa de água quente
  • Métodos locais úmidos: compressas molhadas em água quente
  • Métodos sistêmicos secos: sauna seca
  • Métodos sistêmicos úmidos: sauna úmida, banho quente.

Além disso, métodos profissionais de aplicação de calor também podem ser utilizados, como o ultrassom ou o laser de alta potência. O calor úmido tende a ser um pouco mais eficaz, além de exigir menos tempo de aplicação para os mesmos resultados. Os métodos de calor seco são mais práticos de serem aplicados e muitas vezes são suficientes para o alívio da queixa.

Como usar o calor no tratamento de lesões?

A terapia por meio de calor costuma exigir um tempo mais prolongado de aplicação para conseguir os efeitos desejados, quando comparado com o gelo. Em muitos casos, quanto mais tempo o calor for aplicado, melhor.

Rigidez ou tensão menores geralmente podem ser aliviadas com apenas 15 a 20 minutos de terapia térmica.

Dores moderadas a intensas podem se beneficiar de sessões mais longas, como banho quente, com duração entre 30 minutos e duas horas. O calor não deve ser excessivo e não deve provocar a sensação de queimação.

Contraste de frio e calor

O contraste de calor e resfriamento é uma técnica indicada ao final da fase inflamatória da lesão. A aplicação de calor leva sangue para a área afetada, o que tem um efeito duplo: primeiramente, ele aumenta a circulação e enche os vasos sanguíneos no local com sangue fresco; isso reduz a dor, alivia a tensão e reduz as cãibras musculares.

Além disso, ele traz novos nutrientes para a área, o que acelera o processo de cicatrização. A seguir, o uso do gelo produz efeito analgésico por meio de uma menor transmissão dos sinais de dor pelos nervos periféricos e pode ajudar na absorção de um edema residual.

Os protocolos para a aplicação de contraste de frio e calor são bastante variáveis. A aplicação de calor deve ser mais prolongada do que o gelo em uma proporção de 1:2 ou 1:3. Isso significa que, para cada 1 minuto de aplicação de gelo, deve-se aplicar 2 a 3 minutos de calor local. O tempo de frio ou calor depende de qual a articulação em tratamento.

Articulações com maior cobertura de músculos e gordura precisam de maior tempo de resfriamento, podendo chegar a até 20 minutos. Nas articulações mais superficiais, 2 ou 3 minutos podem ser suficientes. O tempo de resfriamento deve ser o mínimo necessário até que se atinja uma dormência da pele.

Assim, um protocolo para o quadril ou joelho pode se iniciar com 10 minutos de gelo, seguido por 20 minutos de calor e novamente mais 10 minutos de gelo. Na mão, seria razoável alternar 1 minuto de gelo com 3 minutos de calor, repetindo-se esta sequência mais 2 ou 3 vezes.

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