Lesões na Dança

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Lesões na Dança

Antes de abordarmos as principais lesões que ocorrem na dança, vamos apresentar um pouco dessa modalidade em relação ao uso do corpo. Vamos lá?

A dança costuma ser a primeira atividade formal na vida de muitas crianças. Depois, na vida adulta, é também uma forma de os idosos se manterem ativos

Seja como arte ou como esporte, a dança traz uma série de benefícios a todos os tipos físicos e faixas etárias. Não é preciso corresponder à imagem dos bailarinos profissionais, de corpos extremamente magros, para tirar proveito da dança. Conheça alguns de seus benefícios:

  • Ajuda no condicionamento cardiovascular;
  • Melhora a postura;
  • Aumenta o fortalecimento muscular;
  • Ajuda na flexibilidade;
  • Eleva a agilidade;
  • Melhora o equilíbrio;
  • Ajuda na coordenação motora;
  • Atua no controle do tronco;
  • Estimula a memória;
  • Incentiva a musicalidade;
  • Proporciona interação social;
  • É uma alternativa de combate ao sedentarismo;
  • Incentiva uma vida mais ativa e saudável.

Alta performance 

Como em qualquer atividade física, bailarinos que buscam a alta performance por meio de ensaios exaustivos estão expostos a maior risco de lesões. As delicadas sapatilhas de ponta escondem pés habitualmente com bolhas, calos e feridas. Muitas vezes, o sorriso dos bailarinos disfarça as dores nas mais diversas articulações. 

Ainda que o senso comum diga que o ballet é do tipo “no pain, no gain”, é possível preparar melhor o bailarino para minimizar as lesões e potencializar os benefícios da atividade.

Formação do bailarino

Um grande bailarino é resultado de um longo período de dedicação e entrega que, em geral, começa já nos primeiros anos de vida. A maioria dos bailarinos profissionais já gostava de se exibir em frente à TV, ao ouvir uma música ou nas festas de família quando criança. Esse gosto precoce pela dança é que leva muitos pais a procurar escolas de ballet no bairro. É aí que se inicia aquilo que, para alguns, será a locomotiva principal de suas vidas.

Ballet infantil (3 a 6 anos)

Para as crianças, o ballet é mágico, lúdico e apaixonante. As aulas iniciam-se em torno dos 3 anos. Nesse período, são desenvolvidos movimentos básicos do ballet, que trabalham a coordenação motora fina e grossa, exercícios de saltos, giros, equilíbrio e musicalidade.

Os pequenos bailarinos aprendem alguns nomes técnicos como “ponta”, “flex”, “primeira posição”, “en dehors”, “plié” e “sauté”, entre outros passos da técnica clássica. Tudo é abordado de maneira recreativa e extremamente agradável, sem cobranças por resultados.

Ballet júnior (7 a 11 anos) 

A partir dos 7 anos, as crianças aprendem exercícios de maior complexidade, com saltos, springs, petit jetés e giros básicos. Os exercícios ainda devem ser feitos de forma lúdica e sem grandes cobranças por resultado. Porém, com o passar dos anos, o aprendizado passa a ser mais formal, com mais tempo de aula e mais exposição à técnica clássica.

No final desta fase, os pequenos bailarinos começam a preparação para o início dos exercícios de ponta. A intensidade das aulas aumenta e é importante, então, que pais e professores fiquem atentos para eventuais sinais de sobrecarga, principalmente, a dor. Um bailarino que dance com dor nesta idade logo perderá a vontade do ballet e tenderá a ficar para trás de seus colegas. Por isso, se houver dor, é bom colocar o pé no freio.

Ballet juvenil (12 a 15 anos)

Este é o período de maior desenvolvimento do bailarino, no qual o corpo passa pelo que é conhecido como “estirão do crescimento”. Com ele, ocorrem também algumas mudanças importantes, entre outras:

  • O aumento da massa muscular;
  • O desenvolvimento dos órgãos sexuais;
  • O início do período menstrual nas mulheres;
  • O rápido amadurecimento cerebral.

Nesta etapa do ballet, as brincadeiras diminuem e a técnica começa a ficar mais nítida. Aprende-se movimentos específicos, entre eles, as piruetas, os pequenos saltos (como sauté, petit jeté, changement, entrechat trois e quatre), os grandes saltos (como assemblé, sissones e grand jetés) e os fouettés, nos quais os bailarinos desenvolvem suas maiores habilidades.

Sapatilhas de ponta: mais profissionalismo e maior risco de lesões

Finalmente, é hora de os bailarinos vestirem as tão sonhadas sapatilhas de ponta. Este é o momento em que muitos descobrem que a dança é a profissão que querem seguir. Por outro lado, a novidade costuma ser também motivo de frustração (quando percebem que as sapatilhas doem) e até de desistência da dança.

A preocupação com lesões nesta fase deve ser vista com prioridade. Definitivamente, dores articulares passam a fazer parte da vida de muitos bailarinos. É importante que eles sejam sempre questionados a esse respeito, uma vez que muitos têm medo de dizer o que sentem. A avaliação e o tratamento precoce são a melhor forma de evitar que as dores interfiram no bem-estar dos bailarinos. 

É nesta fase também que ocorre uma separação clara entre os que querem apenas uma atividade recreativa e os que buscam performance e profissionalismo. É quando começam novos desafios, competições, espetáculos, viagens, choros, emoções. Os bailarinos percebem que a dança é uma arte que requer luta constante, mas que pode trazer grandes recompensas quando há força de vontade e entrega.

Balé sênior (16 a 18 anos)

Nesta fase, o bailarino intensifica as aulas e os ensaios extras, e passa a dançar quatro a cinco vezes por semana. As cobranças são cada vez maiores, porque é preciso alinhar o ballet com as atividades escolares e a pressão por vestibulares e escolhas profissionais. O desgaste físico e mental é cada vez maior e as queixas de dor tornam-se também mais frequentes.

O bailarino precisa entender o que é uma vida de atleta. Ele começa a perceber que não basta se dedicar às aulas. É preciso cuidar do repouso, do sono, da alimentação, da mente. É preciso abdicar de atividades de lazer, pois não será possível fazer tudo o que os colegas de escola fazem. Sobretudo, será preciso fazer escolhas.

Ballet adulto
O número de mulheres e homens maduros que passaram a procurar o ballet como exercício físico, pela primeira vez ou resgatando a atividade que realizaram na infância, tem aumentado nos últimos anos. Do ponto de vista técnico, o ballet em idade madura é o mesmo praticado pelos jovens. Porém, uma avaliação individualizada é importante para conhecer os objetivos do praticante. Ela ajudará a esclarecendo as possibilidades e os limites da dança nesta fase, de forma a respeitar as condições físicas de cada um.

A prática do ballet, duas a três vezes por semana, tende a ser bastante saudável, com baixo risco de lesões, desde que:

  • Não haja excesso de exercícios de alongamento;
  • Não haja excesso de trabalho de ponta;
  • O condicionamento físico individual seja respeitado, especialmente nos exercícios de agachamento e saltos.

No entanto, caso o bailarino esteja buscando a alta performance ou a manutenção de uma prática profissional, deve estar ciente de que o risco de lesão será cada vez maior com o avanço da idade. Além disso, quanto mais velho o bailarino, mais frequentes são as lesões, que também são diferentes das observadas em bailarinos jovens. 

 

Exercícios de ponta


São aqueles em que o apoio no chão é feito na ponta dos dedos, com o pé sustentado por uma sapatilha específica. São diferentes dos exercícios em meia ponta que, por sinal, correspondem ao que as pessoas leigas entendem por ponta dos pés, nos quais todo o dedo está apoiado no chão.

Os exercícios de ponta impõem grande demanda física e, se o corpo não estiver preparado, elevam o risco de lesões. Como dizia George Ballantines, um dos maiores coreógrafos do ballet: “não adianta a bailarina subir na ponta se, quando estiver lá, não for capaz de fazer nada”.

O trabalho de ponta não depende apenas de um bom pé, mas de um preparo específico de todo o corpo. Isso significa, por exemplo, que se uma bailarina não tiver força suficiente na musculatura do tronco, ela não será capaz de manter o corpo equilibrado sobre a ponta do pé.

Idade, força muscular, tempo de prática e carga horária de treino são alguns dos critérios a serem utilizados para determinar quando uma bailarina está apta a subir na ponta. Esses critérios não são tão objetivos e não existe um consenso sobre isso, nem mesmo entre profissionais de grande renome. Mas, é preciso que o médico seja capaz de identificar se o bailarino está desenvolvendo uma lesão por não estar suficientemente preparado para a ponta.

Não é incomum que meninas sem o menor preparo sejam colocadas na ponta dos pés. Quando isso ocorre, muitas desenvolvem dores que podem ser no , mas que também podem ocorrer no joelho, no quadril ou na coluna, algo que dificilmente a bailarina relacionará aos exercícios de ponta.

 

Posição en dehors: a perna para fora…


O uso das pernas en dehors é outra característica única do ballet. A palavra en dehors, tem origem francesa, pode ser literalmente traduzida como “para fora”. Basicamente, caracteriza-se por manter os calcanhares, joelho e coxas virados para fora durante a execução dos exercícios.

 

Idealmente, deve-se atingir 180 graus de rotação das pernas. A rotação deve ser feita nos quadris, com joelho e pés mantidos alinhados com os mesmos. Infelizmente, poucos são os que conseguem esta posição.

O quadril é uma articulação concebida para prover estabilidade às custas de uma menor mobilidade. Além disso, a própria estrutura óssea impede uma mobilidade excessiva. Durante o período do crescimento do bailarino, a capacidade de o treinamento ajudar na modelagem do osso é bastante limitada. Na fase adulta, é nula.

Com o treinamento, o que se conquista é uma melhor adaptação da musculatura para esses exercícios en dehors, mas o ganho fica abaixo da expectativa da maioria dos bailarinos.

Na tentativa de colocar os pés na tão sonhada posição de 180 graus, muitos acabam transferindo parte do que falta de rotação nos quadris para os joelhos e tornozelos. Resultado: redução na qualidade técnica dos exercícios e maior risco de lesões.

 

Principais lesões na dança

As lesões traumáticas são relativamente pouco frequentes na dança, ainda que as torções do joelho e tornozelo aconteçam com alguma frequência. Já as lesões por sobrecarga e esforços repetitivos fazem parte do dia a dia de praticamente todos os bailarinos.

O ballet é uma atividade completa, que usa o corpo como um todo e, dessa forma, qualquer articulação pode ser acometida por lesões. Nos braços, por exemplo, as lesões são pouco frequentes em mulheres, mas são fonte de preocupação nos homens que executam muitos movimentos em que carregam suas parceiras.

Lesões na coluna

A causa mais frequente de dores na coluna tanto em bailarinos é a mesma da população em geral: a contratura muscular decorrente de sobrecarga. A coluna é formada por uma pilha de 24 vértebras, além do sacro e do cóccix. Entre as vértebras encontram-se os discos vertebrais, estruturas que conferem movimento à coluna. A sustentação dessa estrutura depende de uma complexa musculatura que fica sobrecarregada frente a qualquer desequilíbrio, causando dor.

Essa sobrecarga ocorre, geralmente, ao se realizar atividades extenuantes, e a dança sobrecarrega bastante a coluna. Os discos vertebrais também podem ser acometidos em decorrência da sobrecarga, sendo outra possível causa de dor. Quando acorrem as hérnias de disco, pode ocorrer a compressão de raízes nervosas gerando uma dor irradiada para a perna, conhecida como dor ciática.

 

Frequentemente, bailarinos são também acometidos por espondilólise, um tipo de fratura por estresse que ocorre por esforços repetitivos, principalmente pelos movimentos de extensão da coluna. A espondilólise pode evoluir com o escorregamento de uma vértebra sobre a outra, quando passa a ser denominado espondilolistese. A dor ocorre principalmente com a hiperextensão da coluna, como nos movimentos de ponte.

Lesões no quadril

Nos bailarinos, as lesões mais frequentemente relacionadas ao quadril são:

  • Lesões por impacto;
  • Lesões labrais;
  • Ressalto femoroacetabular;
  • Tendinopatias e tendinites.

As lesões por impacto caracterizam-se por uma alteração morfológica (no formato) dos ossos que formam o quadril, que são o fêmur e o acetábulo. Nesta condição, ocorre o contato entre esses dois ossos nos movimentos em que o quadril é flexionado e girado para dentro (rotação interna). Além de provocar dor, este movimento tende a ficar limitado em comparação ao quadril não acometido.

Esse impacto pode também causar uma lesão labral, ou lesão do labrum acetabular, fibrocartilagem situada na periferia da articulação do quadril e que tem papel fundamental para o seu bom funcionamento.

Já o ressalto femoroacetabular caracteriza-se por um estalido audível no quadril com a realização de alguns movimentos, em especial os movimentos a la seconde (abertura lateral do quadril). Pode ser dividido em três tipos:

  • Ressaltos internos: os mais frequentes entre os bailarinos, ocorrem devido ao movimento do tendão do Psoas (o músculo que faz a flexão da coxa) sobre a cabeça do fêmur. São sentidos na parte da frente do quadril;
  • Ressaltos externos, mais comuns entre os que não praticam o ballet, decorrem do movimento da fáscia lata (a musculatura lateral da coxa) sobre o trocânter maior (proeminência óssea do fêmur). São sentidos no lado de fora do quadril;
  • Ressaltos intra-articulares, associados a lesões como a de labrum ou à presença de um fragmento de cartilagem intra-articular solto.

Eventualmente, esses ressaltos podem ser reproduzidos propositalmente pelo bailarino e, na maioria das vezes, não causam dor e não necessitam de tratamento específico. No entanto, quando dolorosos, exigem investigação mais detalhada.

Lesões no Joelho

 

As queixas relacionadas ao joelho decorrem, principalmente, da sobrecarga do mecanismo extensor, ou seja, das estruturas que permitem que o joelho se estenda, e caracterizam-se pela dor na parte da frente do joelho. Diversos diagnósticos podem estar associados à dor, como a tendinite patelar, a condromalácia da patela e a Hoffite, entre outros.

 

De modo geral, as queixas ocorrem durante o trabalho de ponta, na aterrissagem de saltos ou em exercícios com o joelho muito flexionado (plié, grand plié). No começo, a dor ocorre no início dos exercícios, melhora depois de alguns minutos e retorna depois do treino. Com o tempo, o joelho passa a doer durante toda a atividade.

Lesões no pé / tornozelo

1- Tendinopatia do flexor longo do hálux

O tendão flexor longo do hálux é o tendão que movimenta o dedão para baixo quando a pessoa está de pé. É ele que mantém o dedão esticado durante os exercícios de ponta. Esse tipo de tendinite é raro em pessoas que, especificamente, não dançam na ponta.

A dor é geralmente sentida no tornozelo, onde ocorre uma mudança na direção do tendão, e piora ao forçar o dedão para baixo contra uma resistência externa. Entre os fatores que predispões os bailarinos a esse tipo de tendinite, temos:

  • Sapatilhas inadequadas;
  • Falta de força;
  • Mobilidade do pé insuficiente para a realização de exercícios de ponta;
  • Excesso de treinos na ponta (por si só, este pode ser o único fator de origem da dor).

2- Tendinite calcânea (tendinite do Tendão de Aquiles)

A tendinite calcânea caracteriza-se pela dor proveniente do tendão calcâneo, também conhecido como Tendão de Aquiles, estrutura que fica localizada na parte posterior do calcanhar.
Esta é mais uma lesão por sobrecarga e está associada ao encurtamento e à fraqueza da musculatura da panturrilha. Tal musculatura é bastante sobrecarregada na dança por amortecer o impacto na aterrissagem de saltos e por manter o pé na posição de ponta.

3- Joanete (hálux valgo)

As joanetes caracterizam-se por uma deformidade na qual o dedão entorta para a parte de dentro do pé, em direção aos dedos menores. São frequentes no mundo moderno, tendo como principal vilão o uso de calçados inadequados, como alguns de salto alto e bico fino.

O ballet, por concentrar todo o peso do corpo sobre os dedos, também predispõe ao desenvolvimento da joanete. Para evitá-la, é preciso considerar, mais uma vez, a influência das sapatilhas utilizadas.

4- Síndrome do impacto posterior do tornozelo
O impacto posterior do tornozelo caracteriza-se pelo impacto que ocorre entre a parte posterior da tíbia (osso da perna) e o calcâneo (osso do calcanhar), com o pinçamento de estruturas como a cápsula articular entre eles. 

Em cerca de 7% da população, é possível observar a presença de um osso acessório denominado Os Trigonum. Para a maioria das pessoas, isso não traz nenhum problema. Porém, no caso de dançarinos, principalmente aqueles que dançam na ponta, o Os Trigonum pode predispor ao desenvolvimento da síndrome, devido aos extremos de movimentos a que o pé é submetido.

Impacto posterior do tornozelo

 

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