Atividade Física na Infância

Home / Atividade Física na Infância

Atividade Física na Infância

A infância é um período de rápido desenvolvimento físico e mental. O corpo humano apresenta janelas de oportunidades nas quais está apto a desenvolver cada tipo de habilidade física, e se não houver estímulo adequado durante estas janelas dificilmente a criança irá recuperar isso mais a frente (Aí está a importância de se tirar as crianças da frente da televisão).

Por outro lado, querer treinar algo antes que o corpo tenha maturidade não trará nenhum beneficio e irá atrapalhar seu desenvolvimento além de aumentar o risco para lesões. Um exemplo disso é o aprendizado de andar: utilizar-se de andadores para permitir que a criança ande mais precocemente pode até retardar o seu caminhar de forma independente.

Ainda que exista um padrão comum para todas as crianças, cada uma tem seu tempo e é preciso que sejam vistas com individualidade, de forma que os desafios impostos a pais, professores e educadores físicos são enormes. O resultado do trabalho com as crianças, porém, nem sempre é tão perceptível de imediato, de forma que o reconhecimento acaba sendo baixo.

Pais tendem a investir menos na educação básica, professores bem sucedidos migram para a educação superior e educadores físicos para o esporte profissional; enquanto isso, as crianças muitas vezes ficam nas mãos de profissionais menos qualificados.

Falta ou excesso de atividade física

O sedentarismo é um problema crescente no mundo moderno, e as crianças não estão fora disso: Escolas dão cada vez menos importância para a educação física, parques e áreas públicas estão se tornando mais escassos, pais têm medo de deixarem as crianças brincarem livremente nas ruas e, já na adolescência, a competitividade escolar e pressão por resultados em vestibulares desviam a atenção da criança para uma vida mais sedentária; computadores, celulares e vídeo games ganham cada vez mais espaço.

Promover a atividade física na infância além de permitir o desenvolvimento pleno de sua motricidade significará o estabelecimento de uma base sólida para a redução do sedentarismo na idade adulta, já que crianças sedentárias tendem a se tornarem adultos sedentários.

Obesidade infantil e até mesmo problemas de saúde típicos da população adulta como o aumento do colesterol ou diabetes têm sido observados em idades cada vez mais precoces.

Vale lembrar que crianças e adolescentes fisicamente ativos além de serem mais saudáveis têm maior probabilidade de sucesso profissional na vida adulta, de forma que deixar de praticar atividades físicas para ficar estudando não costuma ser uma boa estratégia ao se pensar no futuro da criança ou adolescente.

A OMS – Organização Mundial da Saúde, recomenda o mínimo de uma hora de atividade moderada ou intensa por dia até os 17 anos de idade, o que é uma realidade cada vez menos frequente.

Segundo estudo realizado pela Nestlé em parceria com o Ibope, 45% das crianças entre 10 e 12 anos no Brasil são sedentárias de acordo com os critérios adotados pela OMS, chegando a 56% entre as mulheres.

Acredita-se que estes números sejam ainda mais alarmantes em crianças mais velhas.

De forma oposta, alguns familiares vislumbram a glória olímpica e o status dos grandes atletas através da especialização esportiva precoce e colocam a criança em uma rotina bastante extenuante de treinos voltados para o esporte competitivo ou ocupam todo o seu tempo livre com atividades esportivas extra-curriculares.

A qualidade do que é feito em uma aula também importa e muito: professores costumam ser valorizados quando o time conquista resultados expressivos em competições, e isso faz com que muitos deles se dediquem mais em preparar o pequeno atleta para uma competição do que em ensinar os fundamentos do esporte.

A curto prazo, a especialização esportiva e o treino voltado para a competição podem ser suficientes para que a criança se destaque frente aos colegas da mesma idade e os resultados podem até vir nas categorias de base, mas a longa prazo ela tenderá a ficar para trás e atletas que antes não se mostravam competitivos muitas vezes se tornam mais vitoriosos.


Os efeitos deletérios do estímulo precoce à competição vão mais além: muitas crianças não apresentam maturidade mental / intelectual para suportar a carga de pressão do esporte competitivo bem como a frustração por eventuais resultados negativos e passam a ver o esporte não como diversão mas sim como obrigação, mesmo que inconscientemente (a sensação de fracasso pode fazer com que ela não consiga assumir que o esporte não esteja fazendo bem para ela).

O rendimento no esporte piora, o rendimento escolar piora e até mesmo o relacionamento familiar pode ser afetado. Isso não tem relação com “ter ou não ter dom para o esporte competitivo”, uma vez que em um ou dois anos ela poderá ser até mais competitiva e preparada mentalmente do que outros que se destacaram em idades mais precoces.


Os efeitos deletérios e muitas vezes permanentes do excesso de atividades esportivas e da especialização esportiva precoce têm preocupado cada vez mais a comunidade médica, tanto que a Academia Americana de Medicina Esportiva (AAOSM) lançou em 2007 uma campanha denominada “Stop Sports Injuries”, que busca informar a sociedade dos malefícios desta prática.


Identificar uma criança com prática esportiva aquém do ideal não envolve grandes dificuldades, mas caracterizar que a atividade esteja sendo excessiva ou inadequada nem sempre é tão fácil. Na dúvida é importante que se procure orientação especializada.

Desenvolvimento atlético da criança

Pensando nas janelas de oportunidades descritas acima, um grupo de especialistas canadenses desenvolveu um programa denominado LTAD – Long term Athletic Development (Desenvolvimento atlético a longo prazo), que busca orientar pais, professores e treinadores em como abordar as atividades físicas em cada estágio do desenvolvimento da criança, seja para torná-la um adulto saudável, seja para se tornar um atleta competitivo de alto rendimento.

Este programa é importante no sentido de mostrar que mesmo quando o objetivo é a busca pelo alto rendimento e pelo esporte competitivo, a especialização precoce também é prejudicial. A exposição da criança a estímulos variados fará com que ela desenvolva habilidades também variadas, e isso será importante na carreira do futuro atleta.

​0 a 6 anos


Este é um dos momentos mais críticos no desenvolvimento da criança, devido à velocidade com que novos aprendizados são adquiridos. A criança deve manter uma vida ativa em um ambiente divertido e estimulante, com atividades não estruturadas e sem muitas regras.

É importante que seja exposta a atividades as mais variadas possíveis, de forma que receba estímulos também variados. Parques infantis e ambientes externos costumam propiciar ótimas oportunidades para que desenvolvam suas habilidades.

As crianças desta idade não costumam reagir bem a atividades muito organizadas e rotineiras, e se enxergarem o esporte como treino e não como diversão, tendem logo a desistirem.
Esta é também uma fase bastante importante para o desenvolvimento da personalidade da criança.

Pais e outros familiares têm papel fundamental para isso, já que são eles (e não os professores ou babás) as grandes referências para a criança, aqueles nos quais ela se espelha para saber o que é certo ou errado.

Dificilmente uma criança terá boa alimentação com pais ou avós vivendo a base de lanches, doces e refrigerante; crianças que vêm seus pais desrespeitando-se um ao outro farão o mesmo com colegas e professores, e pais que passam o dia no sofá dificilmente terão filhos ativos e saudáveis.

6 aos 9 anos


Nesta idade a criança já pode ser introduzida a esportes variados, que devem ser praticado de forma não estruturada, com o mínimo de regras e foco na diversão. Espera-se que as crianças desenvolvam uma série de habilidades que envolvam o ABC do atleticismo: agilidade, balanço e coordenação, o que facilitará o aprendizado de esportes específicos nas fases seguintes do desenvolvimento.

A maior parte das crianças que no futuro se tornarão esportistas profissionais ou de alto rendimento já estão em contato com o esporte alvo nesta idade, mas sem a busca por uma especialização precoce; desta forma, um futuro tenista já estará praticando tênis, mas também estará praticando diversas outras atividades físicas.

O foco ainda deve ser na participação e não na competição.

9 a 12 anos


Esta fase é o período imediatamente anterior ao estirão do crescimento. O sistema nervoso central já está bem mais desenvolvido e permite o aprendizado de habilidades esportivas cada vez mais refinadas, mas ainda não são capazes de absorverem regras e táticas complexas.

No futebol, por exemplo, não adianta querer explicar posicionamentos ou jogadas ensaiadas, podem todos correrem juntos atrás da bola.

As crianças já podem demonstrar clara preferência para um esporte em relação a outros, mas ainda que se dedique cada vez mais ao seu favorito é importante que também esteja exposta a outras modalidades, para que continue a melhorar suas habilidades atléticas como um todo. Isso será fundamental para que melhore também no esporte de sua preferência.

12 aos 16 anos

Neste período o corpo humano passa pelo “estirão do crescimento”. Juntamente com o crescimento rápido ocorrem aumento da massa muscular, desenvolvimento dos órgãos sexuais, início do período menstrual nas mulheres e rápido amadurecimento cerebral, entre outras mudanças.

O corpo não amadurece da mesma forma e na mesma idade em todas as pessoas e este amadurecimento tende a ser mais precoce em mulheres do que em homens. Ainda assim, enquanto uma menina de 11 anos pode já estar passando pelo estirão do crescimento e ter o corpo parecido com o de um adulto outra de 15 anos terá o corpo de uma criança.

Da mesma forma, o desenvolvimento mental e psicológico também ocorre em momentos diferentes e, enquanto uma criança pode estar preparada para aguentar uma alta carga de estresse e pressão emocional e até use isso como estímulo, outras desistem do esporte porque foram exigidos além do que a sua maturação física e mental permitia naquele momento.

Um ano depois isso tudo poderia ser diferente, mas aí já é tarde demais.

Começa aqui a haver uma diferenciação clara entre aqueles que querem apenas ter uma vida ativa, aqueles que querem competir por lazer e aqueles que buscam resultado.

O esporte competitivo passa a ser mais presente na realidade do adolescente que almeja a excelência, mas o treino ainda é importante. Inicialmente, uma boa proposta seria dedicar 60% da temporada para treino e 40% para competição, incluindo o período de treino diretamente voltado para a competição (táticas, posicionamento).

Com o tempo, pode evoluir para 40% treino e 60% competição. No final desta fase, atletas que se destacam mais já passam a viajar para competições e eventualmente integram as seleções nacionais de base.
É importante também nesta fase que dentro de uma modalidade esportiva também não ocorra a especialização precoce.

Um jogador de futebol ou basquete deve jogar nas diversas posições; no atletismo, deve treinar corridas longas e curtas, salto e arremesso; na natação, deve treinar todos os estilos.

16 anos até a vida adulta

Durante esta fase, aqueles que almejam resultados de destaque passam a levar uma vida o mais próximo possível da vida de um profissional. Mais do que aprender a competir, aprende-se a viver como um atleta. É preciso que se estude os adversários, que se prepare para viagens, que saiba lidar com a pressão por resultados.

Aquelas pessoas que não almejam o esporte de alto rendimento, estarão nesta idade aptos a manterem uma vida ativa com foco na saúde e na qualidade de vida.

Lesões esportivas nas crianças

O organismo da criança reage de forma diferente ao esforço repetitivo do esporte quando comparado com adultos. Se por um lado os tendões e a musculatura são mais resistentes e menos predispostos a lesões, a estrutura óssea torna-se o principal alvo de preocupações entre os pequenos atletas.

O esqueleto da criança apresenta uma particularidade que são as fises de crescimento, locais onde ocorre o crescimento do osso imaturo. Estas fises são também o ponto mais frágil do esqueleto, estando vulnerável tanto para lesões por esforços repetitivos como para lesões traumáticas.

Lesões nas fises de crescimento podem levar a deformidades que persistem ao longo de toda a vida e podem ser a origem de dores e lesões no futuro. Um exemplo típico disto é o alargamento da fase de crescimento do radio distal (osso do punho) frequentemente visto em ginastas e que pode levar a uma deformidade característica nestes atletas.

As lesões no esqueleto imaturo merecem uma discussão a parte e serão discutidas em um outro artigo.

WhatsApp chat